sábado, 2 de maio de 2015

[Resenha] Stephen King - Sobre a Escrita, a arte em memórias

Por falar em livros...

A Editora Suma lançou mês passado aqui no Brasil o cultuado On Writting do autor Stephen King, lançado nos EUA em 2000 (e relançado depois, em 2010). É um livro de não ficção onde o autor fala - como o nome diz - sobre o processo de escrita (linguagem, o ato de escrever, o que impulsiona um autor, e de quebra, nos conta um montão sobre sua própria vida).

Confesso que não estava muito empolgada, porque não sou muito fã de biografias, ou de livros de não-ficção o próprio Dança Macabra dele, que li há muitos anos, me decepcionou... [*coff*talvez porque eu o tenha comprado por engano, achando que ia ler o Dança da Morte (The Stand)*coff*] Mas esta impressão não durou três páginas, logo o livro me conquistou.

O livro é relativamente curto e o tom é intimista, o autor parece um avozinho querido contando histórias de seu passado, o que é cativante. Dividido em três partes, a primeira intitulada "Currículo", o Sr. King nos mostra algumas de suas lembranças mais antigas (para mim, a quem a vida parece ter começado aos 11 anos, parece incrível alguém lembrar de fatos acontecidos aos 4, 6 anos). Mas ele lembra e nos conta algumas passagens emocionantes e engraçadas (eu ri muito com este livro), usa estes fatos para mostrar os tijolinhos que construíram o autor dentro dele. 

Da infância, passa pela adolescência, os primeiros contos publicados (a vitória de vender um conto por vinte dólares, por exemplo), fala rapidamente, mas com grande e emotiva reverência sobre quando conheceu Tabitha Spruce, sua esposa até hoje [eu, particularmente, achei lindas as referências maduras dele ao relacionamento com ela e toda a família], a emoção da primeira proposta de verdade, quando conseguiu vender por um valor expressivo os direitos de publicação do primeiro livro: "Carrie, a estranha" [que, na verdade, foi o primeiro a ser publicado, ele já tinha escrito três romances antes dele, Rage, A longa marcha e O concorrente, que só foram publicados bem depois] - a dificuldade de ver-se em uma situação em que não tinha dinheiro sequer para comprar remédio para a filha doente (quem nunca?).

A segunda parte é sobre a escrita, propriamente dita. Dá dicas de linguagem, construções, diálogos... menciona alguns trechos para exemplificar o que está querendo dizer [no fim, fiquei com uma leve dúvida se todas as dicas dele - que referem-se à língua inglesa, são válidas inquestionavelmente também para a língua portuguesa]. E há um franco ataque ao uso excessivo de advérbios na literatura moderna -- Repitam comigo: advérbios não são seus amigos, advérbios são do mal.--Amei a parte sobre enxugar o que for irrelevante. Amei mesmo. Certamente se isto fosse regra geral, não teríamos tantas "sagas" atualmente *sorrisinho maldoso*.

Na terceira parte, que encerra o livro ele conta sobre o acidente que sofreu em 1999, que quase o matou. Também contém trechos emocionantes.

Ao longo do livro, convém mencionar, que ele "disseca" algumas de suas obras, fazendo algumas revelações que pessoas mais sensíveis a SPOILERS provavelmente não irão gostar. Lembrando que, já que o livro é de 1999/2000, são as obras mais antigas: Carrie, A longa Marcha, Buick 8, Salem, A dança da Morte, Misery... atenção na hora de ler. Eu não li alguns destes, mas com os filmes e tudo o mais, não achei os spoilers tão ofensivos assim (minha tolerância a eles é elevada), de qualquer forma, requer cuidado aos que não gostam.
Eu fiquei é com vontade de ler os que não li e reler os que já li (para tentar ver pelo prisma dele).

Para mim, este livro foi um grande desmistificador. 
E por outro lado, um grande mistificador também Emoticon confused Advérbios, advérbios, como livrar-nos deles??????

Ao mesmo tempo que me deu vontade de escrever mais, me deu vontade de me encolher à minha insignificância e deixar a coisa para os profissionais de verdade, como ele.

P.S.: Fiz esta resenha para a Page Group Stephen King, do Facebook.  
Já conhecem?

Galera super do bem e diversos conteúdos sobre o universo do autor atualizados diariamente... Neste mês de aniversário do grupo, estão rolando várias promoções e concursos.

terça-feira, 14 de abril de 2015

[Resenha] J.R. Ward - The Shadows

Por falar em livros...

Terminei a leitura do The Shadows, livro 13 da série Irmandade da Adaga Negra, da autora J. R. Ward, lançado no início do mês... se vocês leram meu último post, devem saber que minhas expectativas não estavam muito altas, mas ainda assim... o livro me surpreendeu por ser tão ruim!!!
Sabem o livro do Phury (Amante Consagrado) que até então é tido por grande parte dos leitores como o mais fraco da série até agora? Então, este conseguiu ser pior.
Terminei as quinhentas e noventa e duas páginas em inglês ontem, com uma imensa sensação de decepção... Embora eu saiba que a autora não me deve nada, e que obviamente algumas leitoras vão gostar, e blablabla... Como dizia Raul: "mas é que se agora pra fazer sucesso, pra vender discos de protesto,todo mundo tem que reclamar....."


Falando por cima sobre a história... este livro fala dos dois irmãos Trez e iAm, da raça dos Sombras (uma vertente da raça vampírica, assim como os sympaths). Desde o livro do Rehv (Amante Vingado) eles vinham aparecendo aqui e acolá, ganhando destaque como personagens periféricos série afora. Eles apareceram em "Amante Vingado" como seguranças e guarda-costas fodões do Rehvenge em seus clubes noturnos e negócios escusos, e que os ajudaram com toda aquela questão da princesa sympath
Trez o tresloucado sexual, fodedor de tudo o que respire por perto dele, iAm o quieto "virjão", na dele. Ao longo dos últimos livros vimos delineadas sugestões de parte da história deles, que Trez havia sido vendido pelos pais, na infância para a Rainha dos Sombras para que fosse emparelhado à filha dela, a Princesa do s'Hisbe, como estava escrito nas estrelas segundo o mapa astrológico do nascimento deles. Trez consegue fugir deste destino, e se esconde na cidade de Caldwell, aliando-se a Rehv e a Irmandade, mas a lâmina deste destino estava sempre pairando sobre sua cabeça - e a do irmão, pronta para cair a qualquer momento. Em "O Rei", os s'Hisbe descobrem onde eles estão escondidos, e aparecem cobrando que ele cumpra seu destino e volte ao Território. Nos dois últimos livros, já vínhamos vendo o envolvimento de Trez pela Escolhida Selena, de quem tivemos uma sugestão de sofrer de uma doença gravíssima em "O Rei".

A seguir, exponho minhas impressões, tentando mantê-la livre de SPOILERS, porém, quem for sensível ao assunto, é melhor parar de ler aqui.  E não, não sou uma HATER, porém, procuro ser minimamente crítica quanto ao que eu leio, e embora eu adore a série, achei "The Shadows" um livro muito aquém do que deveria ter sido. 

Então, cortando em miúdos:

1) Trez e Selena já começam Os Sombras em clima de SóLove; 
2) As 592 páginas do livro cobrem um período de tempo impossível: dois ou três dias (imaginem só a encheção de linguiça de personagens periféricos!);
3) Apesar de toda a intriga delineada, ou seja, que, para ficar com seu HEA, Trez teria de superar toda a questão de ter de cumprir sua sina junto ao s'Hisbe, o único que pareceu se preocupar com esta questão o livro inteiro, foi o irmão, iAm. Trez, como lhe sempre foi típico, ligou o FODA-SE logo no início e ficou no Love com a Selena, pouco se fodendo com o que aconteceria depois;
4) Enquanto a cada capítulo alternado, desde o início, víamos iAm se condoendo, se matando para pensar em um jeito de salvar o puto, vemos que Trez só foi se lembrar que tinha um irmão, e se preocupar com o que poderia lhe ter acontecido lá pela página 300 (!) do livro - nisto, o pobre do iAm já tinha sido preso no território s'Hisbe, já tinha passado um perrengue danado para tentar buscar uma solução para a tal da doença da Escolhida, tudo pelo irmão;
5) Faltou aquele clima de mitologia (ainda que forjada) que teve em Amante Desperto, quando haviam capítulos atuais se alterando com capítulos flashback da época da prisão do Z. Em umas duas ou três páginas, a Ward nos mostra muito por cima como foi o curto espaço de tempo que Trez passou na prisão s'Hisbe quando garoto (e não foi nada demais, no final das contas);
6) Nada de Sola Morte (graças aos céus pelos pequenos favores), mas tem um pouco de Assail, e ela, só em suas lembranças;
7) Houve a introdução de uma personagem nova, a Paradise, filha do Primeiro Conselheiro do Rei, que vai ser personagem do livro da spin-off, Black Dagger Legagy, a ser lançada em Dezembro/15. No início achei-a chatinha, tipo adolescente que só pensa em celulares e mensagens de texto, e cheia de nove horas, mas depois acabei gostando dela, porque abordou algumas questões bacanas sobre o conservadorismo que impera também na raça, contra a aceitação das fêmeas na guerra contra os lessers
8) A tal da Princesa s'Hisbe, que já vínhamos adorando odiar, se mostra simplesmente uma FOFA livro afora (oi?)
9) A Ward foi óbvia demais em algumas das soluções de seus conflitos. Revisitou mesmo aquele velho clichê do "dois-irmãos-gêmeos-e-uma-garota", e a escaramuça com o s'Hisbe pela qual iAm se descabelou livro afora - e para o qual, Trez não parecia dar a mínima - acabou se resolvendo MILAGROSAMENTE SEM ENVOLVIMENTO DELES (oi²? aí fica muito fácil, não?) 
10) No campo Xcor X Layla.......... tem uma cena deles verdadeiramente boa, de deixar o coração formigando e borboletas no estômago. Para logo em seguida, Xcor peidar o fubá e cagar a coisa toda. Eu sempre o defendi, mas finalizei The Shadows positivamente odiando-o. Assim não dá para te defender, abigo!
11) Rhage teve uns faniquitos inexplicáveis O LIVRO INTEIRO!!!!! Faniquitos que não explicaram a que vieram, porém, dão pistas do que acontecerá no livro seguinte, que se chamará "The Beast" (obviamente relacionado ao dragão que Rhage carrega dentro de si), e que enfocará ele com Mary. Já digo aqui minha aposta para The Beast: já que Mary é estéril, o bebê que ela e Rhage terão certamente será adotado. E minha aposta é que seja daquela fêmea que está moribunda no Safe Place. (Óbvio, Ward... tão óbvio... tsc tsc tsc).
12) A Virgem Escriba dá o ar de sua graça bem no início, mas nada relevante. Parece que a autora só enfiou ela na história para constar. 
13) o s'Ex tem coração... e ele sangra! (quem diria......)

A parte boa... as cenas do iAm são hot, críveis e ele é verdadeiro macho de valor! Se enxugassem todas as chorumelas e fizessem só uma novella dele, seria perfeita. Agora deixar o pobre do Xcor em suspenso, esperando a prostituta que exigiu do Zypher, para esquecer a Layla (escroto!) por mais de setenta páginas, é broxante demais, pois quando retoma daquele ponto, tanta coisa aconteceu antes e depois que você acaba nem estando mais naquele clima.
Apesar do consenso que eu acho que vai ser geral, eu não desgostei muito profundamente do final de Trez e Selena. Pelo menos nisto, a Ward foi minimamente coerente. Embora eu sinta que não foi um ponto final. 

Livro ruim, gente. 
Que pena


quinta-feira, 2 de abril de 2015

The Hellbound Heart (Hellraiser) / O Coração Condenado - Clive Barker

Por falar em livros...


Vou falar hoje de uma noveleta (para quem não sabe, uma noveleta - ou novella - é basicamente aquela história que é grande demais para ser um conto, e pequena demais para ser um livro) de Clive Barker, autor dos excelentes "Livros de Sangue" e "O Desfiladeiro do Medo" (este último, já resenhado aqui

Foi publicado inicialmente em Novembro de 1986, com o título de The Hellbound Heart, pela editora Dark Harvest, no terceiro volume da sua série de antologias Night Visions, e conhecido por ter se tornado a base para o filme de 1987, Hellraiser (no Brasil, o filme ganhou o subtítulo "Renascido do Inferno") e suas continuações. A novella voltou a ser publicada de forma individual pela HarperCollins em 1988, após o sucesso do filme, junto com um audiobook gravado por Clive Barker e publicado pela Simon & Schuster Audioworks. 
Tem o estilo gore e visceral que Barker já introduzira nos seis volumes de sua série de contos "Os Livros de Sangue". 

A história enfoca um quebra-cabeça místico em forma de caixa e o horror que se abate sobre uma família que deu azar de cruzar seu caminho.


Eu andava a procura deste conto desde que havia lido alguns volumes dos Livros de Sangue. Desde criança eu gostava do filme (a figura do Pinhead, sempre foi das minhas favoritas dos filmes "proibidos", mas que eu assistia escondido mesmo assim) e quando descobri o autor, tentei fazer buscas pela internet, mas nunca havia encontrado este material. Descobri mais tarde, que nunca foi lançado aqui no Brasil, daí a ausência de informações. 
Consegui baixar o audiobook e ele ficou esquecido no meu note por alguns meses, mês passado eu acabei jogando no iPod para ouvir qualquer hora destas (me alegra agora saber que o narrador é o próprio Clive, conforme a Wikipedia, informação que havia me passado despercebida). Bom, em matéria da língua inglesa eu sou uma curiosa entusiasta, mas não expert. Me viro bem na escrita e leitura, mas minha compreensão verbal deixa muito a desejar. Consegui apreender uns 70% da narração em quatro partes e já me dei por muito satisfeita! E foi muito bom ter contato com esta mídia e ver que funciona bem para mim (eu enjoo se tentar ler no ônibus e sempre ando com meu iPod, então, já cogito enchê-lo de audiobooks para poder aproveitar as enfadonhas viagens de ônibus e caminhadas a pé de casa para o trabalho, do trabalho para casa - rs)

Aproveitando o entusiasmo que ter acesso à esta tão procurada história  me causou, resolvi praticar um pouco o meu inglês e fiz uma tradução amadora, que disponibilizo para quem quiser ler e conhecer. Baixem aqui "O Coração Condenado" em pdf.

Considerações gerais:
1) Não sou tradutora profissional, o material pode (e certamente deve) conter erros e/ou inconsistências, sejam condescendentes em seu julgamento;
2) Este post não é um incentivo pirataria - levem em conta que este material não foi lançado no Brasil;
3) Como fã, também torço para que alguma editora se anime a lançar o material com uma primorosa tradução profissional, em edição linda para ser ostentada na estante, e estarei na primeira fila para comprar!


Ah, sobre a história... Eu gostei muito da narrativa. É basicamente a mesmíssima história do filme (o primeiro), com algumas poucas diferenças, mas com aquela profundidade que só o livro tem em relação ao filme. 
Diverti-me muito ouvindo, lendo, traduzindo e revisando. Espero que gostem também!

Até mais!


Links corrigidos. 
Para baixar em PDF clique aqui  e para baixar em EPUB, clique aqui
Boa leitura!

terça-feira, 31 de março de 2015

[Dia de Lançamento] J.R. Ward - The Shadows (BDB #13)

Hoje é dia de lançamento do 13º livro da Irmandade da Adaga Negra, da autora americana J. R. Ward. 
O livro se segue ao The King (lançado ano passado) também foge ao padrão de título com "Amante.../Lover..." dos primeiros livros da série, o que parece ser uma guinada (consciente ou não) da autora nos rumos da irmandade. 
Após anúncio da criação de um spin-off a se chamar "Black Dagger Legacy" que tratará de histórias de novos personagens passados na Academia da Irmandade (estilo quando o John Matthews apareceu, no terceiro livro, lembram?) prometendo várias interações dos irmãos principais Z, Phury, Tohr etc etc etc com os novos alunos... eu, como fã temo somente que a porção de personagens paralelos continuem engolfando as personagens centrais e os irmãos sejam cada vez mais esquecidos. 
Eu, particularmente, não me sinto muito encorajada a acompanhar. Tudo me cheira a uma série juvenil meia boca que se realmente emplacar, deixará cada vez menos a Irmandade original sob os holofotes, até que a autora deixe de publicar de vez.

Mas reminiscências à parte, vamos ao lançamento...

The Shadows - Dois irmãos unidos por mais do que laços de sangue, lutam para mudar um destino brutal no novo comovente livro da Irmandade da Adaga Negra, da autora #1 do New York Times, J. R. Ward.
Trez "Latimer" na realidade não existe. E não só por esta identidade ter sido criada somente para que um Sombra pudesse se integrar despercebidamente no mundo. Vendido pelos pais à Rainha dos S'Hisbe quando criança, Trez consegue fugir do Território e passa a viver como capanga e cafetão em Caldwell, NY por anos - o tempo todo fugindo de um destino de servidão sexual. 
Ele jamais teve alguém em quem pudesse confiar totalmente... exceto seu irmão, iAm. 
O único objetivo de iAm sempre foi impedir os comportamentos autodestrutivos do irmão - e ele sabe que falhou. 
Somente quando a Escolhida Selena entra na vida de Trez, o macho começa a mudar as coisas... mas então, é tarde demais. O débito de emparelhar com a filha da Rainha é cobrado e não há para onde correr ou fugir, e nenhuma forma de negociar.
Preso entre seu coração e um destino ao qual jamais escolheu, Trez deve decidir entre colocar-se ou a outros em perigo - ou abandonar para sempre a fêmea que ama. 
Mas então, uma tragédia inimaginável acontece e muda tudo. Afundado em um abismo emocional, Trez deve buscar uma razão para continuar ou arriscar-se a perder a própria alma para sempre. E iAm, em nome do amor fraternal, depara-se com um sacrifício final.



Já estou com o livro em mãos... mas confesso que minhas expectativas estão baixas. Acho que o iAm vai acabar roubando a cena, e aguardo ansiosamente qualquer ceninha de Layla com Xcor. (e estou pronta para xingar qualquer aparição da Sola com o Assail  kkkkk)
Vamos ver o que a Warden preparou para nós!

sábado, 7 de março de 2015

Reze pelas mulheres roubadas / A morte de Sarai / Desaparecidas

Por falar em Livros...

Em Fevereiro/15 li 3 livros sobre os quais gostaria de discorrer um pouquinho, embora de autores, narrativas e enfoques diferentes, tem um mesmo plano de fundo: o sequestro de mulheres para escravidão sexual.

O primeiro que li, foi o excelente "Reze pelas mulheres roubadas", da Jennifer Clement.


Contundente retrato do México atual, Reze pelas mulheres roubadas mostra a dura vida das mulheres na região de Guerrero, a mesma onde mais de 40 estudantes foram mortos em 2014. Narrativa ficcional escrita a partir de mais de 10 anos de pesquisas da autora, o livro acompanha a história da menina Ladydi, que aos 11 anos vê sua melhor amiga ser roubada para o harém de jovens escravas de um chefe do narcotráfico. É para evitar esse destino que as mulheres da região, e de outros recantos esquecidos pelos governos, deixam de frequentar a escola, cortam os cabelos ou até mesmo se mutilam, a fim de ficarem menos femininas e passarem despercebidas aos olhos da elite do tráfico. Escrito em tom de observação antropológica, sem qualquer julgamento moral sobre as atitudes dos personagens, Reze pelas mulheres roubadas foi aclamado pela crítica no México e nos Estados Unidos.


Devo confessar: Tenho pavor do México. (coff meu marido diria: "fica vendo video de decapitação na internet, dá nisso" coff) Los Zetas, coisa e tal. Pavor mesmo, acho que não iria para o México nem que me pagassem. Comecei a ler este livro, achando que ia ser documentário, em tom de reportagem (não presta atenção nas sinopses... não presto mesmo! Já me deparei com tantas sinopses com spoilers que atualmente só passo os olhos para apreender o clima e não fico lendo muito profundamente para não me frustrar com revelações indesejadas).  
Mas então, foi uma grata surpresa me deparar com uma ficção dinâmica, com um humor ácido permeado por um pungente apelo sentimental (ainda que nada gratuito). 
Retrata a história de Ladydi e da comunidade de mulheres de Guerrero, que são vitimas, mas não indefesas ou resignadas. Elas lutam! Elas refletem! Elas tentam. Mesmo a mais analfabeta, solitária e despretensiosa mulher da comunidade tem uma sabedoria tão cínica que é apaixonante. 

Guerrero e uma comunidade só de mulheres. Por ficar próxima a fronteira com os EUA, todos os homens de lá, mais cedo ou mais tarde, acabam partindo para ir tentar a vida do lado de lá da Fronteira. Alguns morrem, alguns conseguem. Os que conseguem, jamais voltam. Os que voltam uma ou duas vezes, trazem dos EUA algo mais do que alguns miseráveis dólares: AIDS, por exemplo. Miss Marple diria: a natureza humana sendo como é... e ela estaria mais do que certa. Algumas coisas só "servem" dentro de uma perspectiva limitada. Abertos os horizontes para perspectivas mais amplas, o ser humano é mais do que eficiente em justificar suas próprias tendências de fazer o que lhe é mais conveniente em todas as situações, mesmo que isto o torne um monstro que abandona a família em um lugar miserável, para nunca mais voltar, nunca mais ligar.
Além da falta de figuras masculinas, (ou talvez até mesmo por isto), Guerrero é constantemente saqueada por gangues de narcotraficantes, que raptam garotas de dez, doze anos para fazerem parte de seus haréns. Por conta disto, todas as garotas do vilarejo, desde bebês, são disfarçadas de garotos. Diz-se que todas as crianças de Guerrero são meninos, mas que desaparecem misteriosamente aos 10/11 anos. Cabelos sempre curtos, dentes esfregados com substâncias para que pareçam podres, tudo para enfeiá-las, descaracterizá-las como mulheres (vítimas) em potencial. Quando a natureza de desenvolve, e os contornos do corpo feminino ficam evidentes demais para serem disfarçados, é só desespero. Elas vivem em estado constante de alerta para a chegada ou passagem de carros para esconderem-se em buracos no solo, tudo para os traficantes não vê-las, não levá-las.

Apesar disto, Ladydi é uma garota que pensa. Acompanhamos livro afora suas aventuras e desventuras e, com o plano de fundo delineado pela autora, vislumbramos fatores psicológicos inerentes a uma vida cheia de rancor, sem perspectiva alguma, cheia de violência. Mas ainda com alguns sonhos simples, desejos normais - pelo menos normais para nós, que vivemos em constante abundância. E em meio a tamanha falta de recursos e em circunstâncias tão estranhas, a força feminina se ergue, como um pilar, um monumento de protesto em meio a um mundo onde somente os homens tem direito de vislumbrar um futuro diferente. 
O livro é curtinho, e vale muito ser lido. 
Deixa aquele gosto amargo na boca ao tentarmos imaginar quantas Ladydis existem por aí, no México, ou no resto do mundo. 
Dentro de todas nós.

***

No embalo do livro anterior, li a sinopse abaixo e resolvi emendar uma leitura na outra. "A Morte de Sarai, de J.A. Redmerski"

A Morte de Sarai - A autora do best-seller de "Entre o agora e o nunca" e "Entre o agora e o sempre" traz uma história de paixão e sobrevivência.

Sarai era uma típica adolescente americana: tinha o sonho de terminar o ensino médio e conseguir uma bolsa em alguma universidade. Mas com apenas 14 anos foi levada pela mãe para viver no México, ao lado de Javier, um poderoso traficante de drogas e mulheres. Ele se apaixonou pela garota e, desde a morte da mãe dela, a mantém em cativeiro. Apesar de não sofrer maus-tratos, Sarai convive com meninas que não têm a mesma sorte. 

Depois de nove anos trancada ali, no meio do deserto, ela praticamente esqueceu como é ter uma vida normal, mas nunca desistiu da ideia de escapar. Victor é um assassino de aluguel que, como Sarai, conviveu com morte e violência desde novo: foi treinado para matar a sangue frio. Quando ele chega à fortaleza para negociar um serviço, a jovem o vê como sua única oportunidade de fugir. Mas Victor é diferente dos outros homens que Sarai conheceu; parece inútil tentar ameaçá-lo ou seduzi-lo. 

Em “A morte de Sarai”, primeiro volume da série Na Companhia de Assassinos, quando as circunstâncias tomam um rumo inesperado, os dois são obrigados a questionar tudo em que pensavam acreditar. Dedicado a ajudar a garota a recuperar sua liberdade, Victor se descobre disposto a arriscar tudo para salvá-la. E Sarai não entende por que sua vontade de ser livre de repente dá lugar ao desejo de se prender àquele homem misterioso para sempre.


Não sei se eu ainda estava sob impacto do livro anterior, neste tema, acho que acabei me iludindo com a sinopse e esperando demais. 
O comecinho é bom, promete uma leitura bacana. A mocinha, Sarai, empreende uma fuga espetacular de seu local de cativeiro (o harém de algum narcotraficante no México) onde era mantida cativa há 9 anos. Para fugir, ela engenhosamente esgueira-se por alguns capangas que montavam guarda e esconde-se, armada, no soalho do carro de um sujeito misterioso que estava no local fechando negócios escusos com o chefão do tráfico. Ela não sabe quem ele é, nem quer saber, só sabe que passam-se meses sem alguém de fora aparecer por ali, e aquela é sua única chance de escapar de lá. Tem a arma, que está disposta a usar para convencer a pessoa a ajudá-la a escapar. Vagamente tem como objetivo cruzar a fronteira com os EUA. Mas não tem certeza se é para lá que quer ir, aliás, a Sarai não tem certeza de nada.

Não sei se, pela temática ser YA, a autora não ousou aprofundar os anos de cativeiro da Sarai. Se tivesse arriscado a descrever algumas torturas, flashbacks de alguns acontecimentos de seu dia a dia como escrava sexual de um narcotraficante, teria dado mais profundidade, dimensionalidade ao emocional meio capenga da personagem. O lema todo do livro pode ser resumido com o velho cli-CHE: Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.
Sarai é terna, é a típica mocinha de coraçãozinho nos olhos, meiga, inteligente, sensível... as circunstâncias da vida, e toda a crueldade humana que ela presenciou (contra si e outras meninas) a forçaram a endurecer. Só que ela não endureceu direito. Parece que a personagem é só máscara, não tem conteúdo. Aí fica difícil comprar a história, partindo de premissas tão capengas.

Convenhamos: Saraí é CHATA! É confusa! Quer uma coisa, faz outra. Quer fugir, no meio do caminho quer voltar para ajudar à amiga que ficou para trás. Quer tentar vida nova, bem longe - nos EUA talvez - estudar, viver bem, dignamente, mas aí no meio do caminho, do nada, decide que quer virar uma matadora de aluguel, assim como o cara (o anti-heroi misterioso tipicamente clichezistico) que a ajuda (ainda que relutantemente) a escapar. Mas aí, decide que não consegue (ah, os princípios!) matar qualquer um, só pode (quer/consegue) matar os badboys - detalhe: seu radar para os verdadeiros badboys livro afora é PÉSSIMO!. 
Ela é daquela personagem chata que, em situação de perigo, alguém lhe diz: "fique aqui e não se mexa", e é claro, que, assim que esta pessoa sai do recinto, ela enfia a carona na janela, tosse, espirra e peida chamando atenção e desencadeando um tiroteio onde morrem n pessoas. Menos ela. 

Pelo menos o livro é curto. 

***

Fevereiro, em um dos clubes de leitura que participo no Facebook, a autora do mês foi a Tess Gerritsen. Eu adoro thrillers policiais, sejam filmes, séries e - descobri - livros. Já havia lido há alguns anos o livro O Cirurgião, que é o primeiro da série Rizzoli & Isles. E, apesar de ter gostado, não tinha me despertado nada de "oooooohhhhhh, que fantástico", a ponto de me fazer querer ler os outros. Quando apareceu este desafio no grupo, resolvi ler o segundo da série, que, confesso, gostei, mas também não achei ooooohhhh... A questão é que, compartilhar instantaneamente a experiência de leitura com outras pessoas é tão legal que acaba te incentivando e estimulando. Acabei o segundo e fui para o terceiro (devido ao entusiasmo de uma outra colega que conseguiu ler 6 (!!) livros da autora no período, e falava maravilha deles. Encurtando um pouco, cheguei ao quinto livro da Série Rizzoli & Isles:


Sinopse: Desaparecidas - Considerada o grande nome do thriller médico, a verdadeira herdeira de Robin Cook, Tess Gerritsen nos traz este novo e assustador sucesso. Aquela mulher parecia ser mais um corpo na mesa fria do necrotério. Mas quando a legista Maura Isles inspeciona o cadáver, algo assustador acontece: a mulher abre os olhos. Ainda viva, ela é levada rapidamente para o hospital. Mas o bizarro logo se transforma em perigo. Com uma precisão chocante, ela mata um segurança e faz reféns... um deles, uma paciente grávida. Quem é essa pessoa violenta e desesperada, e o que ela quer? 


Dos 4 livros da autora que li no período, este foi o que eu mais gostei. (mas isto é meio suspeito, porque, após o segundo, vai ficando um livro melhor que o outro, e eu só consegui chegar ao quinto. Talvez o sexto seja melhor. Este mês, mudou o autor). 

Ainda na temática tráfico de mulheres, este tem como plano de fundo mulheres da União Soviética  que são enviadas ao EUA, com a promessa de bons empregos em casas de família, mas que acabam sendo enviadas para prostituição em regime de escravidão. A vida de um grupo destas mulheres é retratado em capítulos alternados (em forma de flashbacks) de forma crua e honesta (construindo camada a camada a dimensionalidade das personagens). Desde o desembarque em terras americanas, passando pela percepção do que realmente iria acontecer com elas, até o dia a dia, humilhações e torturas a que tinham de se submeter, tudo entremeado com capítulos cujo enfoque é o ponto de vista de Maura Isles, e outros da Jane Rizzoli.
A parte isto, o livro apresenta tramas paralelas que cativam e intrigam. Não dá para discorrer muito sem revelar informações e interligações importantes (como todo bom thriller policial) mas me encantaram especialmente a questão maternidade x vida profissional levantadas pela Rizzoli mais para o final.

Agora tenho de me focar em John Grisham. Mas retomo a Tess assim que puder, viciei em suas personagens e intrigas! Maura Isles rocks a lot  <3


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A lalaôôô... ôôô... - Resenha Sr. Mercedes - Stephen King

Nunca faço grandes planos para esta época (questionavalmente) festiva que é o Carnaval, mas o feriado é muito mais do que bem-vindo! Pretendo curtir minha melhor viagem: leitura (tchan-naaaannnnn!!!). Estou com alguns livros começados, e pretendo terminar pelo menos três neste feriado, será que consigo?

Deixo uma resenha do Sr. Mercedes, que estou devendo há meses. Comecei a escrevê-la para participar de um concurso no Face, mas ela não atendeu aos critérios exigidos para participar, mesmo assim fiquei com dó de descartar... Então vamos lá.


Leitura, a melhor viagem!
Carnaval... é uma data tão marcante da cultura brasileira, que é até complicado para quem não curte a folia se desvencilhar deste rótulo que recai em cima de um país inteiro aos olhos do mundo, por conta de características folclóricas populares tão marcantes: carnaval e futebol. Para alguém que, como eu, não curte nem uma coisa, nem outra, acaba sendo até difícil demonstrar que não é bem assim e que nosso povo é muito mais do que esta população erótico-desenfreada que curte requebrar o esqueleto ao som de um tum-tum-tum sem sentido ou que acredita que só se pode ser “rei” com uma bola no pé. Gosto de acreditar que somos um povo com muito mais gostos do que isto (e desgostos também!). Que é possível ter talento para muito mais coisas além disto...

Se neste Carnaval você também está integrando o rol dos que não curtem tumulto e não tiveram como viajar, abra um livro e permita-se viajar sem sair da poltrona, conhecer outros lugares, sentir o ritmo de uma boa narrativa dominar seus sentidos e até viver outras vidas... 
Peguem suas máscaras! 
(Ou livrem-se delas...)

Para esta resenha, escolhi o livro Mr. Mercedes, que li em Junho de 2014 e reli um pouco depois.



Bom, de início eu devo admitir que, apesar de achar ótimo dividir e compartilhar impressões, anseios e expectativas com outros fãs em relação ao lançamento de determinada obra, uma das coisas mais legais é quando conseguimos pegar um livro sem expectativas, sem saber o que esperar, sem ter lido muito a respeito dele e assim, permitirmo-nos cultivar nossa própria opinião e impressão, sem estarmos contaminados por preconceitos, opiniões de terceiros, ou pelo o que esperávamos que aquele livro fosse.
Quando comecei a ler o Mr. Mercedes, foi assim. Consegui lê-lo no original, assim que foi lançado. Sem saber que era a primeira inserção do autor no mundo da literatura policial, sem saber que não encontraria ambientação sobrenatural e que não seria um livro típico de “terror”. E não sabia que seria o primeiro livro de uma trilogia... 
Sabia que era um King. E isto me bastou.

Em linhas gerais, o livro inicia com um ataque aleatório de um Mercedes cinzento contra centenas de desempregados que se enfileiravam à espera da abertura dos portões de uma feira de empregos. Em poucas páginas, duras e cruas, King consegue nos aproximar de alguns deles, identificando alguns deles, absorvendo seus nomes e um pouco do histórico de vida, então quando vemos que morreram oito pessoas, não são só números, são aquelas pessoas da fila sobre as quais acabamos de ler, o Augie Odenkirk que leu "As vinhas da Ira" e que queria levar a Rosa de Sharon para tomar um café... e, Janice Cray a mãe solteira que carregou a filhinha bebê em um sling para uma fila em uma madrugada chuvosa e friorenta na esperança de conseguir um emprego e ter como sustentá-la. É a bebê Patricia que não teve a oportunidade de viver tudo o que estava destinada a viver. É um começo pungente. Atinge-nos como um soco.

A partir daí, conhecemos e acompanhamos a vida do detetive reformado Bill Hodges, tentando acostumar-se a vida pós-aposentadoria. A beira da depressão, divorciado e amargamente solitário, que passa suas tardes vegetando na frente da TV em uma vida carente de sentido, de objetivos. Descobrimos que Hodges era o detetive encarregado do caso do Mercedes Assassino e, se aposentara sem prender o bandido, o que é uma grande frustração em sua carreira. Certa tarde o correio lhe entrega uma carta. Carta esta que se mostra uma verdadeira bomba. Alguém que se intitula Mercedes Assassino o desafia, provoca e enfurece, pisando justamente em seu ponto fraco: o fato de tê-lo deixado escapar, convidando-o para contatá-lo por meio de um site onde é possível deixar mensagens de forma anônima. Hodges se vê, de início, descrente sobre a identidade do Mercedes, mas com o passar do tempo, sente-se tentado a desvendar o mistério que permaneceu em aberto no fim de sua carreira: quem era o Mercedes Assassino? Seria possível capturá-lo? A partir da rede jogada pelo vilão, Hodges reencontra um foco, uma razão de viver. Varre sua depressão para debaixo do tapete e sai a caça do pior criminoso que seu departamento já viu. Com a ajuda de um vizinho esperto, o jovem Jerome "pau-pra-toda-obra" e expert em tecnologia (como só um moderno adolescente americano de classe médio-alta consegue ser), eles se lançam a caça do Mercedes, tentando virar o jogo que ele havia iniciado contra ele próprio.

Uma coisa que eu gostei muito na narrativa é que, diferente dos romances policiais típicos, neste, descobrimos logo no início quem é o bandido. Ao contrário de livros da Agatha Christie e Conan Doyle, onde junto com os detetives, somos confundidos página após página com pistas falsas lançadas a esmo pelo esperto autor, para só descobrirmos o bandido nas últimas páginas, King nos diz quem é o assassino antes da página 50. E ao longo do livro, os capítulos se alternam entre os pontos de vista ora do vilão, ora do herói, o que torna a leitura bem dinâmica e acaba até nos aproximando um pouco do vilão, se não para compreender os seus motivos, pelo menos para ter um vislumbre de seus sentimentos, sua motivação.

O livro é bem dinâmico, tem explosão, show de rock (ainda que pop), muita investigação, tem romance (é curioso captar uma cena “hot” em um livro do autor, ele é bem pudico) e um amadurecimento cativante das personagens. Tem partes que emocionam, tem partes que dá aquele nó no estômago de revolta e indignação, mas mais que tudo, há aquela torcida para que os mocinhos prendam o bandido no final e que tudo acabe bem.

Livro recomendadíssimo!

Agora ficamos no aguardo do segundo volume da trilogia do detetive Bill Hodges, a ser lançada em Junho de 2015. Intitulada "Finders Keepers" (Achado não é roubado, em tradução livre). Pelo pouco que vi na sinopse, não tem nada a ver com o Mercedes Assassino. O bom é que sempre podemos contar com um livro do Stephen King para os próximos carnavais!
=)




segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Evento: Wave Summer Festival - 07/02/15

Por falar em livros...
Bom, hoje não vou falar de livros... pelo menos não diretamente, mas lá no finzinho tentarei fazer a conexão entre os assuntos.

No dia 07 de Fevereiro acontecerá em Cotia - SP a primeira edição da Wave Summer Festival um grande festival de música underground idealizado e organizado por Alex Twin, da gravadora Wave Records. O evento contará com nove bandas (quatro estrangeiras e cinco brasileiras) e 10 DJ's, que se alternarão no evento, que tem duração prevista de 11 horas.

Um diferencial bacana é o fato de - nos moldes europeus - não se tratar de um evento noturno. As portas se abrirão às 13:00, e o último show da noite terminará por volta das 23h. Outro grande diferencial: a entrada de menores de 12 anos, acompanhada pelos pais será livre. É para ser um evento familiar, com direito a toalha de piquenique e tudo o mais. Um evento digno de desaposentar qualquer gótico aposentado! O local é bem espaçoso, e parece lindo, contando com com 1 Palco principal, 1 Teatro, 2 Bares, 1 pista de Dança, área de Expositores, Praça de Alimentação e muito espaço verde. 

Sobre as bandas: 

Olam Ein Sof (Brasil)

Duo formado em 2001, pelos músicos Marcelo Miranda e Fernanda Ferretti, inspirados na música medieval, renascentista, folk, mitologias diversas,  mundo etéreo, desenvolvendo assim um trabalho autoral diferenciado. Procurando um nome com significado profundo, que não se prendesse a um rótulo, e representasse também uma união infinita, escolhem o nome cabalístico Olam Ein Sof. Seu significado é complexo, porém pode ser simplesmente traduzido como Mundo dos Infinitos, que é a forma como pensam na arte, infinita e transcendente. Sua discografia conta com 4 CDs autorais: Immram (2004), Celtic Mythology (2005), Ethereal Dimensions (2010) e Reino de Cramfer (2014). Sobre este último, O Mundo dos Infinitos abre seu portal para apresentar o Reino de Cramfer; um lugar cósmico, profundo, infinito em possibilidades. Suas músicas trazem seres de outras galáxias, dimensões, mitos e histórias ancestrais. Primeiro CD do grupo composto inteiro em português e na instrumentação violões de nylon e aço, mandolin, charango, cuatro, cítara vox, cistre, trompe, flauta doce e voz.

Prager Handgriff (Alemanha):   


banda alemã de dark EBM, formada em 1990 em Witten. Após cinco demos lançadas de forma independente assinaram contrato com Gothic Art Records. Os membros são Stefan Schäfer (vocal, bateria eletrônica) & Volker Rathmann (teclados e programação). Pela primeira vez na América do Sul.

Merciful Nuns (Alemanha)


Merciful Nuns é a sequencia da banda GARDEN OF DELIGHT liderada por Artaub Seth nos anos 90. Comparados a The Sisters of Mercy na época, a banda lançou mais de 8 álbuns e teve Adrian Hates do Diary fo Dreams como baixista até 1996. Nos anos 2000, Artaud resolveu encerrar seu trabalho usando Garden of Delight e passou a lançar como MERCIFUL NUNS. São mais de 10 lançamentos e tocaram em quase todas as partes do mundo.

Ataraxia (Italia)

Ataraxia é uma banda neoclássica Italiana que combina tecnologia moderna com instrumentos arcaicos. Eles descrevem sua música como uma travessia “entre o sagrado e profano, etéreo e neoclássico, contemporâneo e música nova”. Eles realizam pesquisas através das lendas mitológicas Gregas e Latinas. Suas letras são escritas em várias línguas contemporâneas e anciãs. O álbum, mais recente, lançado em 2014 chama-se Wind At Mountain Elo.

Das Ich (Alemanha): 

Das Ich é uma banda de música eletrônica fundada em 1989. O grupo, formando por Stefan Ackermann e Bruno Kramm, foi um dos proeminentes fundadores e contribuidores do "Neue Deutsche Todeskunst" (New German Death Art), movimento musical do início dos anos 90*. O termo alemão "das ich" refere-se ao conceito freudiano que James Strachey traduziu como "ego" (em tradução literal seria "o eu")

* No final dos anos 80, alguns músicos alemães combinaram os estilos musicais neo-clássico, gothic rock e darkwave com textos filosóficos alemães e apresentações em palco altamente teatrais. A música era baseada no rock gótico de bandas como Siouxsie and the Banshees, The Sisters of Mercy e Fields of the Nephilim, e os sons darkwave de bandas como Joy Division, The Cure e Depeche Mode. As letras frequentemente homenageiam filósofos alemães como Andreas Gryphius, Johan Wolfgang von Goethe, Friedrich Nietzsche e Gottfried Benn, além de poetas de outras nacionalidades como Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire e Jean-Paul Sartre. Os shows destas bandas dão ênfase a fantasias, luzes e pirotecnia. As apresentações visam estimular todos os sentidos e inspirar uma atmosfera sombria e sangrenta. Os temas das letras incluem transiência, maldade, niilismo, surrealismo, expressionismo, filosofia existencial, criticismo religioso, violência, loucura, isolamento, depressão e especialmente morte. Como parte deste movimento, muitas bandas usam Latim Clássico em suas letras e nomes de álbuns. 


Klaustrophobik (Brasil)

O projeto teve início em 1997, por Nildo Santos, que lançou seu primeiro cd (demo) em 2000. Seu primeiro álbum, DEAD BODIES INDUSTRY, foi lançado em 2003 com 10 faixas matadoras, que chamaram atenção de pessoas importantíssimas na cena EBM mundial, como Johan Van Roy (SUICIDE COMMANDO). Com um grande álbum, Nildo começou a se apresentar ao vivo e também a ganhar um número maior de fãs e seguidores no Brasil, Alemanha, USA, UK e Rússia.


Das Projekt (Brasil): 

O Gothic Rock "old school" da banda, acumula uma forte ascensão para apreciadores do estilo. Formada em 91 pelos guitarristas Edu Krummen e Gê Lucas (época na extensão do nome Das Projekt der Krummen Mauern), somando ao baixista, Call Lament, e aos fortes vocais de Marcelo Kpta, a banda vem fazendo inúmeros shows divulgando o CD "Les Belles Infideles" (2014) .


Individual Industry (Brasil): 


Após 18 anos, a banda paulista criada nos anos 80, fará sua única e exclusiva apresentação. Últimas aparições aconteceram em 1997, tocando ao vivo no programa METROPOLIS (TV CULTURA) e SESC PINHEIROS (BABEL).

Scarlet Leaves (Brasil): 

Banda darkwave/ethereal formada por Claudia e Audret. Lançaram seu primeiro álbum em 2008, e o segundo álbum "Deep Sad Frustration" no final de 2014 pela Wave Records.


Plastique Noir (Brasil): 

Banda pós-punk gótica formada no fim de 2005/início de 2006 em Fortaleza-CE-Brasil; Em 2007, o Plastique Noir recebe seu primeiro convite para um festival internacional (Wave Gotik Treffen - Alemanha) e dá início à produção do seu primeiro álbum oficial, intitulado “Dead Pop” (Pisces Records-SP), que é lançado no ano seguinte. Em 2010, deu início à produção de seu segundo álbum, "Affects" e preparam novo lançamento para 2015


***

Bom, não sou profunda conhecedora da cena musical (alternativa ou não),mas confesso-me absolutamente apaixonada pelos italianos do Ataraxia. Meu primeiro contato com a banda foi lá pelos idos de 2000 com o finado e saudoso audiogalaxy, que era uma plataforma de compartilhamento de mp3 (estilo napster e soulseek) onde era possível pesquisar bandas relacionadas pelo seu gosto musical. Ataraxia foi-me apresentado como relacionado às minhas paixões da época (e de todas as épocas: Cocteau Twins e Dead Can Dance). Foi amor à primeira ouvida. A voz potente da Francesca Nicoli, aliada aos instrumentos clássicos, etéreos e oníricos além das linguagens diversas me encantou e continua encantando. Em um álbum, nos sentimos em uma taberna, em outro, em um romance de Cavalaria, em outro, na Atlântida perdida ou marchando junto a um exército rebelde e galante. Ela canta em inglês, em francês, em latim, em alemão, em italiano, em língua inventada. Lindo, lindo, lindo! As influências da banda, vão da mitologia à literatura, tendo musicado belamente dois poemas do Edgar Allan Poe: Annabell Lee (música de mesmo nome) e The City in the Sea (música Zelia), além de O fantasma da ópera, Orlando, entre outros... Eu jamais imaginei vê-los aqui no Brasil, e estou super empolgada com esta chance. Já o Das Ich... bom, eu fui super fã pela banda durante um tempo, lá pelos idos de 2005 (quando tive a oportunidade de vê-los ao vivo em uma das raves organizadas pela Thorns) e a presença de palco da dupla (na época, um trio) foi tão marcante que depois disto eu resolvi até me aventurar a tomar aulas de alemão (sem sucesso, só fiz dois anos... ô linguinha difícil!). É uma banda que é garantia de agito a um excelente som e presença de palco. Vai ser ótimo revê-los! O Olam Ein Sof eu já vi em uma apresentação num teatro aqui de São Bernardo. São adoráveis, a apresentação tem todo um clima de Cavaleiros da Távola Redonda, vale muito a pena! Do Klaustrophobik eu já vi algumas apresentações, de 2005 para cá (meu marido dá suporte nos shows - teclado e desta vez, bateria - e eu acabo acompanhando). É muito legal, EBM de primeira. Do Das Projekt não tem nem o que falar... já vi algumas apresentações, gothic rock oldschool de primeira também, os rapazes são uma simpatia e merecem todo o sucesso que o CD Les Belles Infidelles está fazendo. Arrasam sempre. Scarlet Leaves, também é um ethereal conhecidíssimo da cena nacional, com um belo vocal. A Claudia foi vocalista do The Downward Path (banda do meu marido) durante muito tempo, e só tenho elogios para a bela voz e potência vocal dela. É sempre um prazer vê-los ao vivo. O nome da banda, veio de uma música do Ataraxia, fico me perguntando o tamanho da emoção de "dividir o palco" assim, com tamanha influência.  :3
Só para manter o vínculo literatura X música... o DJ Henrique Kipper vai discotecar neste festival. Ele é autor do livro: “A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica” (2008), além de cartunista e descobri recentemente que são deles as ilustrações das capas do belíssimo box As Crônicas de Arthur, do Bernard Cornwell, lançado no Brasil pela Editora Record. Além disto, ele organiza eventos de darkwave e música gótica mensalmente, sendo super ativo na cena.

Aposto que despertei a sua curiosidade... Se gosta de música, literatura, cultura e tem a mente aberta a novas experiências musicais e sensoriais, este festival será certamente de seu agrado. 
=)

Visitem a página da festa para maiores detalhes sobre localização e venda de ingressos.  Wave Summer Festival

Nos vemos lá!